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Não, o seu nome é Toby!* #Racismo #F1

02/06/2020

Não, o seu nome é Toby!* #Racismo #F1

No livro Raízes: a saga de uma família americana¹, escrito por Alex Haley, o personagem Kunta Kinte, que se tornou o patriarca de um clã nos EUA, o qual foi caçado e escravizado na Gâmbia, o menor país da África, lá pelo final do século XVII, tem seu pé arrancado a golpes de machado a mando de seus senhores. A escusa para tal crueldade foi o histórico de fugas de Kinte. O escravo queria a liberdade.

Mas, não só isso. A elite americana, assim como outras elites ao redor do planeta, com origem caucasiana (branca), considerava os negros uma propriedade – como um animal de força. Contudo, os rebanhos eram muito mais fáceis de domar. Como raça, assim como cabras, os negros eram infindavelmente inferiores na concepção deles.

Os brancos, ainda hoje em dia podemos afirmar isso, e sem generalizações, se colocavam na ponta alta da pirâmide. E a elite branca, formada pelos abastados senhores de terras², estavam mais alto ainda.

Crueldade definitiva

A morte de George Floyd, ex-segurança, negro, em Mineápolis, nos Estados Unidos, recentemente, tecnicamente é muito pior que o castigo infringido a Kunta Kinte no livro. Em que pese Kinte ter que conviver o resto da vida com seu pé amputado à força.

Porém, atualmente, não se pode amputar um membro. Ou a polícia bate, prende ou mata. A extinção foi a opção do policial branco Derek Chauvin. Certamente, as primeiras alternativas (em dependência das circunstâncias) já seriam uma violência e tanto.

A crueldade definitiva é a morte. E esta não parece preocupar o assassino. Já que as imagens ganharam bilhões de pessoas na Terra. George Floyd não era Kunta Kinte. Mas, apesar da dificuldade de assimilação, pelos não negros, carregava toda a carga racista desde Kinte e anteriormente.

Por isso, Luiz Gama³ em meados do século XVIII, um dos maiores (senão o maior) defensores da abolição no Brasil, expôs: “ao matar seu senhor, o escravo agia em legítima defesa”. Ou então: “Perante o Direito, é justificável o crime do escravo perpetrado na pessoa do Senhor”.

Fórmula 1

O automobilismo, em especial a F1, é um dos esportes mais elitistas e brancos do mundo. Todavia, conta com uma estrela negra em seu grid. O britânico Lewis Hamilton, nada menos do que seis vezes campeão mundial, que se revoltou contra a violência policial nos EUA com gênese no racismo. “Vocês são uma desgraça”, bradou o piloto.

Lewis foi mais longe e criticou toda a F1, incluindo seus colegas pilotos. “Eu vejo aqueles de vocês que ficam calados, alguns de vocês são as maiores estrelas, e ainda assim ficam calados no meio da injustiça. Não há sinal de ninguém na minha indústria que, é claro, é o esporte dominado por brancos”.

“Eu sou uma das únicas pessoas de cor por lá e ainda estou sozinho. Eu teria pensado que agora você veria por que isso acontece e diria algo sobre isso. Você não pode ficar ao lado. Só sei que sei quem você é e eu vejo você”.

A luta

Faço minhas as palavras de Milton Santos**:

“Essa luta (contra o racismo) tem que ser feita sobretudo por todos. Creio que essa etapa seguinte, a de reclamar de todos que participem; e não só em um dia ou uma semana. Eu não tenho simpatia por treze de maio e nem semana do mês de novembro, porque tenho uma enorme dificuldade em aceitar que o país celebre uma semana, celebre um dia e os resto dos 357 dias se descuide da questão. Eu creio que é importante que haja esses dias no sentido de mobilização. Só que a mobilização não é obrigatoriamente aquilo que produz a consciência”.

  1. O livro foi sucesso absoluto na década de 1970 e, na sequência, virou série de TV e filme
  2. Atualmente, além dos latifundiários, existem os bilionários de vários setores.
  3. Advogado, escritor e jornalista. Filho de uma notável negra livre (Luiza Mahin). Vendido como escravo aos 10 anos. Aprendeu a ler aos 17 anos. Sepultado no cemitério da Consolação com a presença de mais de 3 mil pessoas numa São Paulo com 40.000 habitantes.
  • *Diálogo do livro de Alex Haley no qual Kunta Kinte, sob severo castigo, insiste em se identificar pelo seu nome africano enquanto seus algozes queriam batiza-lo com um apelido americano.
  • **Negro, geógrafo e graduado em direito, responsável pela renovação da Geografia no Brasil na década de 1970.

Rogério Elias, jornalista, fundador ao Amigos da Velocidade ao lado de Téo José, comentarista de Esportes a Motor, professor de jornalismo e palestrante. @RogerioElias.

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Jornalista. Abril, UOL, Yahoo, Estadão, Correio Paulistano.
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