Automobilismo F1 Velocidade

Um cenário para se acostumar

08/10/2018

Um cenário para se acostumar

Ultimamente tivemos algumas ações de pilotos e dirigentes no esporte motor que estão refletidas no dia a dia brasileiro. Coloco nessa cesta o que fizeram em pista Ferrucci, Fenati e, sim, a não devolução da posição do Hamilton para o Bottas. Esses fatos tiveram rápida repercussão entre os fãs por um motivo simples: a conectividade que a comunicação de acontecimentos hoje leva consigo. Literalmente, como num slogan de propaganda de revista antiga, “aconteceu, virou Manchete”. Como um post em rede social.

O mundo não é exatamente um lugar proprício a ações paradisíacas, por assim dizer. A Lei da Selva, na qual o mais forte sobrevive na natureza, está aí para quem quiser tentar discordar. Entretanto, essas atitudes dos pilotos que mencionei acima, por mais que sejam tomadas no calor do momento, partem de seres racionais, os quais por presunção tomam atitudes depois de pensar, mesmo que seja por décimos de segundo, sobre o assunto.

Vamos ao caso do Ferrucci. O americano jogou o carro de propósito sobre o Maini, após o término do GP da Inglaterra de Fórmula 2 em Silverstone. Ainda, dirigiu sem luvas e usou o celular. Foi punido em quatro provas e, depois de virem à tona suas atitudes dentro da equipe, perdeu o contrato. Aqui coloco um ponto de observação sobre o mais profundo desleixo contra sua equipe e colega de profissão. Não seria possível acreditar no que houve caso o fato ocorresse a algumas décadas atrás, sem toda essa conectividade que a Internet proporciona. Entretanto, cerca de quatro horas depois já haviam levantado toda a ficha corrida do piloto, com entrevistas antigas e testemunhos diversos do meio.

Agora refugiado na IndyCar, Ferrucci tem contrato com a Dale Coyne para 2019 e será companheiro de equipe do Bourdais. Sabendo do alto garbo e estirpe do francês, é de se esperar que Santino não cometa os mesmos erros passados e utilize essa oportunidade para aprender com um dos últimos cavalheiros do automobilismo. Qualquer sinal de irritação do francês ao longo da temporada que vem será dado como resultado de relacionamento com um caso perdido.

Depois, na ordem cronológica, a tentativa de assassinato do Fenati, freando a dianteira da moto de um colega de profissão em plena reta. Não quero nem imaginar o que teria acontecido se o fato acontecesse em Mugello. Ainda que o italiano tenha sido espremido por duas vezes antes do troco, foi uma reação completamente desproporcional. Fenati perdeu a licença internacional e italiana, sendo banido do mundo do motociclismo. Segundo o próprio, ficará na loja do avô tocando os negócios. Novamente, o mundo inteiro do esporte motor havia repercutido o fato nas redes sociais com a mesma velocidade que as motos chegam no fim de reta. Em pouco mais de uma hora, surgiram por todos os lados pedidos de banimento do piloto. A MotoGP, numa tentativa de apaziguar a situação e proteger o piloto, deu um gancho de duas corridas. Na segunda-feira, o piloto já não tinha mais o contrato da MV Augusta para 2019 e a situação tornava-se insustentável com a entrevista do Crutchlow pedindo a prisão do italiano.

Na F1, outra polêmica. Depois de deixar Hamilton passar, Bottas, a três voltas do fim do GP da Rússia, pede à Mercedes que seja desfeita a inversão de posições, o que daria a vitória ao finlandês. Ainda que Bottas não mereça uma vitória em 2018 pelo justamente o que não fez na temporada, ficava ali claro que havia uma combinação anterior no motorhome sobre uma possível inversão de posições. Hamilton não devolveu a posição, somou sete pontos a mais no campeonato e depois fez aquela cena toda no pódio, relembrando o que houve na Áustria em 2002. Já durante a prova os fãs da categoria, eu incluso, manifestavam completo descontentamento com a situação, uma vez que Bottas finalmente fazia por merecer uma vitória na temporada. O curioso foi a conta oficial da Fórmula 1 no Tweeter, depois da prova, fazer um comentário sarcástico sobre a situação e ser respondida no melhor estilo alemão pela Mercedes com as mesmas palavras atribuídas ao finlandês no press release pós-prova. Ainda, ambos pilotos demoraram cerca de 15 minutos para aparecer na coletiva de imprensa, sabe-se lá por qual motivo. Sabemos que Hamilton, na atual condição, não precisa disso para ser campeão do mundo de 2018.

Em contraponto, o efeito inverso também vale. Falo aqui da patrulha que acontece nestes tempos de eleições em redes sociais. A simples atitude de se posicionar sobre qualquer assunto torna a pessoa em questão alvo de críticas. Tomemos por exemplo o caso de João Paulo de Oliveira. Lá do Japão, preocupado com o que ele considera errado como escolha presidencial, manifestou-se via Twitter. Sofreu uma enxurrada de xingamentos e ataques dos partidários do candidato em questão. Estas pessoas, sem a menor cerimônia, expuseram seu posicionamento contrário de uma maneira não tão democrática assim. Ainda que a democracia permita a liberdade de expressão, como o regulamento da Fórmula 1 permite o chamado jogo de equipe, nem toda ação é aceitada como correta. O direito seu, leitor, acaba quando começa o do seu colega ao lado.

Isto vai de encontro ao que vemos nas redes sociais de brasileiros nestes últimos meses. O dono da conta pode ser um doce de pessoa no trato pessoal. Entretanto, à frente do seu computador, tablet ou celular, torna-se um propagador de notícias falsas, comentários maldosos e fortemente irredutível no aceite de uma crítica. Como, guardadas as devidas proporções, aconteceu em cada um dos três fatos. Atitudes repentinas, sem compromisso com as possíveis consequências, as quais acabam manchando, ou até mesmo acabando, com reputações mundo afora. Neste mundo conectado de hoje, a sua roda de amizades é visível para milhões de pessoas, quer você queira ou não. O que acontecia a um bom tempo atrás, da demora do desmascaramento de atitudes tidas como deploráveis, hoje é feito em horas, graças ao Google e à Nossa Senhora do Print, como os usuários gostam de brincar sobre o assunto.

Confesso estar um pouco assustado com a pouca, ou quase nula, preocupação com o próximo. O direito de cada um fazer o que acha melhor é sagrado. O que não pode acontecer, em hipótese alguma, é o cerceamento do direito do outro de discordar, dentro obviamente dos princípios de boa convivência e legalidade. Repito: uma atitude impensada tomada em décimos de segundo custa a reputação de toda uma vida. Acostume-se com isso.

Por Carlo Zanovallo (@NoVacuo)

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Jornalista. Abril, UOL, Yahoo, Estadão, Correio Paulistano.
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