Automobilismo F1

#F1: o que deu errado?

27/09/2018

#F1: o que deu errado?

Temos alguns casos na Fórmula 1 de pilotos que se mostraram talentosos nas categorias de base e não vingaram no decorrer da permanência entre os melhores. Podemos incluir aqui Zanardi, que passou pela Lotus, ficou conhecido por conquistar um ponto no GP do Brasil, bateu feio na Bélgica e foi fazer sucesso na Indy antes de voltar para mais um ano na Williams. Ou Ingo Hoffmann, o qual entrou muito cedo na Coopersucar e não teve o mesmo desempenho mostrado na antiga Fórmula 2. Ou ainda, recentemente, Pascal Wehrlein, com ótimo desempenho para os padrões de Marussia e Manor, perdendo espaço para o objeto da discussão de hoje. São ótimos pilotos, sem dúvida, num lugar onde poucos entram e onde selecionados a dedo se destacam.

Esteban Ocon, o responsável por tirar o lugar de Wehrlein na Force India ao final de 2016, pode se tornar um destes casos em 2019. O francês, vitimado pela compra da equipe pelo grupo do qual Lawrence Stroll faz parte, corre o real risco de ficar a pé. Ocon tem sido destaque em termos de desempenho tanto em classificação quanto corridas. É veloz, sabe lidar com as limitações do carro e entende o andamento da corrida como poucos pilotos jovens. É fruto do competente investimento realizado pela Federação de Automobilismo da França, impulsionando também Pierre Gasly para a categoria. O programa é tão bom, que Gasly foi selecionado para ser companheiro de Verstappen na Red Bull ano que vem.

A Fórmula 1 sempre foi um esporte elitista, de gente com dinheiro no bolso disponível para queimar pneu e gasolina. Desde sempre. Mesmo os garagistas até a década de 70, quando os grandiosos patrocínios chegaram de vez ao esporte, tinham esse aporte financeiro de seus negócios próprios, seja venda de carros ou serviços de pista. Entretanto, a quantidade de equipes era suficiente para absorver a leva de jovens postulantes ao título mundial. Ainda, uma vaga era negociada na casa dos milhares de dólares, vide as 200 mil verdinhas que a Mercedes injetou na Jordan para a estreia de Michael Schumacher em Spa. Com esse valor hoje mal dá para comprar macacão, capacete, sapatilha e fazer molde do banco. Sem, no mínimo, 3 milhões de dólares, um piloto de categoria de acesso não senta nem no simulador da fábrica. Houve uma inflação tamanha ao longo dos anos que, para um piloto de país sem tradição no esporte, fica praticamente impossível sonhar com a estreia em Melbourne. O orçamento da McLaren campeã de 1988 é estimado em 80 milhôes de dólares por ano. O da Ferrari, melhor carro da temporada, já começa a bater na casa do bilhão de dólares. É um absurdo.

Voltando ao Ocon, jogado ao muro pelo companheiro de equipe pela 200ª vez na última prova. Falta talento? Não. Falta oportunidade de mostrar serviço? Também não. Mas falta um lugar para chamar de seu. O seu aporte financeiro é considerável, via Mercedes. Entretanto, teve duas portas fechadas, na McLaren e Renault, esse ano justamente por conta desta relação. Em ambos os casos, os chefes de equipe ficaram desconfiados da forma como os prateados fariam esse empréstimo e por quanto tempo. Ainda, os segredos destas equipes, em tese, estariam a perigo. Se isso não fosse verdade, Ricciardo estaria participando normalmente das reuniões de planejamento da Red Bull para o ano que vem. É uma certa maldade no coração gélido dos chefes das respectivas equipes? Claro que sim. Porém, em um lugar conhecido pela alta acidez no sangue de quem circula o paddock, até que não chega a ser tão ruim assim.

Esteban, mesmo com todos os predicados, ficará com o posto de piloto de testes da Mercedes. Wehrlein, por exemplo, rompeu o vínculo com a equipe para tentar vôo solo a partir daqui. Tem grande chance na Williams, lugar que poderia ser do francês caso Claire Williams não tivesse desfeito o acordo de recebimento das transmissões de Brackley. A ele, antes da etapa da Singapura, coube apenas fazer um tweet com um anúncio digno de Páginas Amarelas – olhem eu denunciando minha idade novamente – de procura de emprego. Restará a ele torcer por mais um ano medonho de Bottas para tentar uma vaga para 2020. A situação é tão ridícula que chega a ser cômica. Esperar que um piloto reconhecidamente abaixo do rendimento já mostrado tenha um novo ano ruim para ser considerado apto a ser companheiro de equipe de Hamilton. E se Bottas encaixa em 2019 uma série de improváveis quatro vitórias, roubando assim pontos do Vettel? Voltará a ser considerado o competente piloto do final de 2017? São muitos altos e baixos para alguém que está, claramente, obstruindo o fluxo de talento da Fórmula 1.

Não dá para sugerir uma receita mágica ou solução rápida para o problema. Nas últimas semanas, as equipes de ponta têm discutido a possibilidade de utilizar um terceiro carro na temporada. Isto abriria para um grid com 23 pilotos, criando uma vaga para Ocon na Mercedes, uma adicional na Ferrari e outra na Red Bull. No caso da Ferrari, será que chamariam Raikkonen de volta? Acredito até que o finlandês aceitasse. No caso da Red Bull, quem seria? Trariam algum piloto patrocinado pela empresa de outra categoria? Buemi, Vergne ou, até mesmo, Félix da Costa?

A Fórmula 1 sempre dependeu das equipes nanicas para absorver os novos talentos. Marcus Ericsson é remanescente da Caterham, pasmem. Os tais programas de talentos das grandes equipes está chegando num patamar perigoso, já que se transformou em fonte de renda e não tem criado tantas opções assim. Se dinheiro fosse sinônimo de talento, Paolo Barilla e Lance Stroll teriam no mínimo 15 vitórias cada. Hoje, num grid com 20 pilotos e outras 10 vagas de pilotos de teste, a renovação fica por conta de um piloto com desempenho fora da curva que chega bem apadrinhado ou um outro nem tão talentoso assim com um bitrem de dinheiro por trás dele.

Ocon foi muito bem apadrinhado. Tem lá seus patrocínios. Mas, num momento que é cada um por si, está sem opções. Justo ele, dono de uma tocada limpa e rápida. Tomara que se encontre logo dentro de um cockpit. Porque ele não merece de forma alguma ficar fora da categoria.

Por Carlo Zanovello (@NoVacuo)

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Jornalista. Abril, UOL, Yahoo, Estadão, Correio Paulistano.
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