Automobilismo Rally WRX

Ideias simples e geniais

20/09/2018

Ideias simples e geniais

Eu me rendi ao World Rally Cross. Confesso. Uma ideia simples, prática e de fácil execução. Uma categoria que prende a atenção do público durante praticamente dois dias completos. Um formato de fácil entendimento e naquele sistema de mata-mata típico dos campeonatos de futebol. O criador desse modelo deve estar cheio de dinheiro na conta a uma hora dessas.

A categoria começou nos X-Games, numa forma de trazer o automobilismo para os esportes radicais. Fazia sentido. Poeira, derrapagens, saltos e algumas batidas. Corridas rápidas, de 6 voltas, com a obrigatoriedade dos pilotos utilizarem o traçado mais longo do circuito pelo menos uma vez por corrida. Para a televisão, é o formato ideal, já que as corridas tem, no máximo 8 minutos de duração. Com a pouca duração, a probabilidade dos carros andarem juntos o tempo todo é quase um evento certo – neste momento o leitor terá que recorrer ao Google para pesquisar o conceito estatístico de evento certo para entender a referência. Um pouco de pesquisa não faz mal de vez em quando.

Depois de demonstrado o sucesso, a categoria virou Global Rally Cross, inclusive com Nelsinho Piquet andando de Fusca, o modelo novo, em uma temporada. Outro ex-F1 que participou de algumas corridas foi Scott Speed. Hoje a categoria tem a chancela FIA, conta com um degrau de acesso e nomes vindos do rally, como Loeb e Solberg. Em 2021, tornar-se-á elétrica. Completamente inteligível, já que a autonomia requerida é infinitamente menor em comparação a uma corrida de Fórmula E. Neste tipo de formato de provas cabe até corrida de carrinho de rolimãs.

Este formato de corridas mais curtas para estimular o suspense e prender a atenção dos mais jovens tem feito algumas “vítimas” ao longo dos últimos anos. A Stock Car, antes com provas únicas mais longas, passou a adotar este formato, assim como a Copa Truck. A F-Truck Europeia, então, faz QUATRO provas ao longo do final de semana. Para este tipo de equipamento, uma corrida mais longa detona rapidamente desempenho, sem contar as várias quebras ao longo das provas. Com menos bólidos, o espaçamento aumenta inversamente proporcional a atenção que o público dispõe. Fruto dessa nova geração imediatista que, agora, vem com idade para frequentar eventos esportivos e, principalmente, gastar dinheiro com ingressos e merchandising. Tiro aqui da conta os “eSports”, porque seria uma compração injusta para o automobilismo.

As categorias mais tradicionais do automobilismo ainda resistem a estas mudanças. WEC, IMSA, IndyCar e Fórmula 1 ainda têm suas corridas longas, para os padrões atuais, e algumas vezes são alvos de críticas justamente pela morosidade do espetáculo. Uma corrida da IndyCar em Detroit com poucas bandeiras amarelas ou toques no muro tem o mesmo efeito sonífero de um GP da Espanha ou Rússia da F-1. O turno da noite das provas de 12 e 24 h do WEC e IMSA é para realmente quem gosta de corridas de longa duração. Como espectador, fico um pouco irritado ao ver aquela quantidade de farol alto na tela podendo identificar o carro apenas quando este fica de lado para a câmera ou quando está parado no acostamento.

Tem uma expressão no meio empresarial que eu adoro usar nestas situações: “keep it simple”, ou não complique, numa tradução tão livre quanto um condor. A simplicidade do formato de classificação e rapidez na ação de pista faz com que os locais onde são disputadas as corridas do World Rally Cross estejam sempre com ótimo público. E, pasmem, eles correm em países como Latívia, com pouquíssima tradição automotiva ou automobilística. Tanto na IndyCar quanto na Fórmula 1, todo ano existe mudança no regulamento técnico dos carros. Em ambas as categorias, temos novas mudanças no pacote aerodinâmico para permitir que os carros andem mais próximos em curvas. Quando olhamos 30 anos atrás no tempo, essas mesmas categorias despertavam um interesse nos mais jovens compatível ao que é despertado no WRX. Pilotos extremamente habilidosos, corridas imprevisíveis e muita ação em qualquer parte do pelotão. Tudo bem, vamos tirar dessa conta o desempenho de 2018 do Johan Kristofferson, vencedor de oito de nove etapas. Mas, nem de longe, as corridas deixam de ser um espetáculo. Ainda, a categoria opta por transmissões direto no Facebook para os países nos quais as emissoras não se interessam pelo evento. Como eu escrevi antes, num formato ágil desse cabe qualquer coisa e, adicionalmente, pode ser formatada de várias formas.

Não defendo aqui a diminuição da duração das corridas das categorias rainhas. Até porque não sou imbecil de sugerir as 2:40 h de Le Mans. Longe disso. Entretanto, as novas administrações podem tomar o exemplo do que a Dorna fez com a MotoGP, que bate recordes de menor diferença entre primeiro e décimo lugares com alguma frequência. Motos com partes padronizadas, diminuindo as diferenças de desempenho das marcas, deixando com que os pilotos sejam responsáveis pelo show. Em um futuro próximo, eu espero que tanto F-1 quanto IndyCar olhem algumas décadas atrás e adotem um perfil mais simplista. Porque, o leitor há de concordar comigo, está cada vez mais difícil de convencer os filhos de que corrida de automóvel com mais de meia hora de duração é um programa muito legal. Talvez tenhamos que apelar para o tempo pai e filhos como motivos para mantê-los conosco em frente a TV ou computador. Ainda que meu filho tenha menos de 2 meses, ele não suportou assistir a 10 voltas do último GP de Singapura. Dormiu como um bebê, literalmente.

Por Carlo Zanovello (@NoVacuo)

 

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Jornalista. Abril, UOL, Yahoo, Estadão, Correio Paulistano.
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