Automobilismo F1 Velocidade

#F1 – A nova crônica da tragédia anunciada

06/09/2018

#F1 – A nova crônica da tragédia anunciada

Lá vou eu fazer referência a algo escrito a pouco tempo no novo Amigos da Velocidade. Como direto que sou, vou logo avisando. Na verdade, se o leitor ler a coluna sobre a Williams e o processo de visível decadência da equipe nos últimos anos trocando por McLaren e seus respectivos fatos históricos, será quase a mesma coisa.

O grande conglomerado de Woking, hoje também fábrica de veículos de rua e centro de tecnologia de ponta, vive uma fase extremamente incondizente com a sua história. Na verdade, desde que assinou com os motores Honda e Alonso, foi água ladeira abaixo. Curioso, uma vez que no momento do anúncio da parceria, parecia que estava ali formado o novo time dos sonhos da categoria. Mas nem na escolha das cores do carro a McLaren acertou desde 2014. Tudo bem, esse ano está bem bonito. Longe da Spyker de 2017 e das Andrea Moda, carros todos pretos, dos anos anteriores. Vale lembrar que, ainda em 2014, Magnussen conquistou seu primeiro pódio na categoria na corrida de estreia, com motores Mercedes.

Passados 4 anos, a vitória pós reestruturação não veio. Quase afundou a carreira do dinamarquês, demitindo-o por email, aposentou Button sem a devida pompa e circunstância, aflorou um “Alonsão da Massa” e deixou Vandoorne, um dos poucos dominantes em categorias de base nos últimos tempos, a pé para 2019, por enquanto. Ano que vem irão de Sainz, o qual nas últimas provas está irreconhecível, e Norris, que vem tomando muito tempo do Russell na F2 a algum tempo. Zak Brown, o CEO/homem show da equipe, não consegue um patrocinador principal para encher a lateral do carro, assim como a Petronas faz na Mercedes. Por fim, foi anunciada nesta semana a volta de Pat Fry ao comando técnico da equipe. É como se o Flamengo atual, nessa seca de bons resultados, estivesse anunciando o Joel Santana como técnico.

Se no caso da Williams o nome do mão de ferro da equipe era Patrick Head, o paralelo que traçamos aqui atende pelo nome de Ron Dennis. Inclusive, saudades, já que faz algum tempo que o inglês não aparece nos noticiários. Vendeu a parte milionária na equipe e foi cuidar da vida, tipo como fez Bernie Ecclestone. Ron era extremamente pulso firme, exigente e, até certo ponto, enérgico ao excesso – vulgo grosso. A versão inglesa do Chip Ganassi, “my way or the door way”. Se não concorda, vaza. Apenas gente com um grande compromisso com o resultado dá certo neste tipo de gestão. Eric Boullier que o diga. Hoje, Gil de Ferran está na posição que fora do francês. Tirando o nome do chefe de equipe da parente de Groove, eu mencionei aqui 4 chefes de equipe diferentes. Observem que eu não vou mencionar aqui os responsáveis das fornecedoras de motores, isso apenas somaria mais uns 4 profissionais à lista. Isso mais parece aquelas empresas de tecnologia que começam pequenas e, depois de crescer, trocam o comando porque quem investiu quer uma fatia maior e acaba afastando quem criou.

Jacques Villeneuve, hoje comentarista da televisão canadense, já falou em processo de “Williamnização” da McLaren. Uma maldade claro, mas nunca uma inverdade. Nesta próxima temporada com motores Renault, os ingleses novamente viverão a oportunidade de serem clientes de uma fábrica com equipe na categoria, justamente um dos motivos pelos quais eles desfizeram o acordo com a Mercedes. Assinaram com a Honda, que nunca tinha trabalhado com um motor híbrido de competição na vida, e o resto é história. Os japoneses foram para a Toro Rosso e, em 2019, na Red Bull. Não fosse o desempenho e sorte de Brendon Hartley tão pífios, estariam brigando com a própria McLaren pelo Mundial de Construtores. A tamanha incoerência de decisões do passado vai cobrando o preço no presente.

Se March, Tyrrell e Lotus, equipes tradicionalíssimas da categoria sucumbiram porque não acompanharam o profissionalismo modelo imposto pelo próprio Ron Dennis no começo dos anos 80, a McLaren sucumbe porque não acerta uma decisão. O tempo vai passando e o limite só chega mais perto. Limite do quê, cara pálida, você deve estar se perguntando. Limite da paciência de quem ainda injeta dinheiro na divisão de Fórmula 1 da equipe. Ou você acredita que essa injeção de dinheiro será a fundo perdido para a McLaren colocar pilotos no grid que podem brigar no máximo pela sexta posição nas corridas? Não faz o menor sentido.

Concordo com a máxima de que nada é eterno no esporte. Tudo e todos têm um início, auge e declínio. Porém, neste momento no qual a categoria decide o que será dela após 2021 em termos de motores e regras, a perda potencial de uma grande equipe diminuirá o interesse das montadoras em participar a longo prazo. Vale lembrar que, com o futuro elétrico já tornado presente, todos os grupos automotivos estão hoje com os olhos voltados para a Fórmula E: custos menores, corridas mais emocionantes em sua maioria, maior proximidade com o público e o compromisso com energia limpa, a menina dos olhos da nova geração.

A McLaren, assim com a Williams, tem tomado decisões baseadas em conceitos do passado pensando no futuro. Não funciona. Parafraseando Einstein, fazer as mesmas coisas esperando resultados diferentes é uma das definições de loucura. É como aquela pessoa que quer conquistar um novo amor mantendo os hábitos de antigos relacionamentos, recusando-se a aprender com a nova situação. Que as novas cabeças da equipe se organizem rápido e, principalmente, na mesma direção. De outra forma, daqui a três anos, estarei eu novamente fazendo referências a esta coluna, antiga no tempo futuro, explicando o que já se vê desde já.

P.S.: falei aqui da Williams e a Claire desfez o acordo de fornecimento de transmissões com a Mercedes. Essa já brinca com a sorte da equipe a algum tempo e não parece disposta a mudar o rumo. Pobre Kubica e, quiçá, Ocon.

P.S.2: adoro escrever quiçá e fazer P.S..

Por Carlo Zanovello (@NoVacuo)

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Jornalista. Abril, UOL, Yahoo, Estadão, Correio Paulistano.
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