IndyCar Velocidade

A #IndyCar no Rio de Janeiro: a falácia da esperança

05/09/2018

A #IndyCar no Rio de Janeiro: a falácia da esperança

Os fãs da velocidade ficaram chocados e esperançosos com a notícia publicada pelo jornalista Ancelmo Gois, em sua coluna do O Globo, no início do mês, de que a Prefeitura do Rio estava negociando com a organização da Fórmula Indy para sediar uma prova da categoria em 2020. Outros veículos também abordaram o assunto nas semanas posteriores.

O grande chamariz para o evento seria que a reta de chegada e largada passaria na Passarela do Samba, coisa que já aconteceu em São Paulo, quando foi usado o Sambódromo do Anhembi. De acordo com o site “Grande Prêmio”, o investimento seria privado e usaria parte da estrutura montada para o Carnaval , incluindo as partes das ruas da região, com  um circuito de aproximadamente 3 quilômetros.

É espantoso ver a organização da Indy ainda negociando com brasileiros após todas as experiências com São Paulo e Brasília. Depois de tudo que aconteceu, incluindo ações judiciais, não deixa de ser interessante ver que o Brasil é considerado um mercado importante para a categoria.

Entretanto, ao ver a situação com mais calma, vale considerar algumas coisas…

O mapa da região do Sambódromo carioca mostra uma área com uma razoável densidade populacional e próxima ao Centro do Rio de Janeiro. Em um raio de um quilometro estão: uma grande unidade administrativa e operacional dos Correios, um Centro de Convenções e o Centro Administrativo da Prefeitura — conhecido popularmente como “Piranhão” (até meados do século passado, a área concentrava o “baixo meretrício” da cidade). Além disso, trata-se de um ponto de confluência de trânsito das Zonas Norte e Sul. Bem como está próximo de um dos acessos da Ponte Rio Niterói, Avenida Brasil e Linha Vermelha.

Na década de 90, esta região teve incentivo do poder público para ser revitalizada. Mas somente na segunda metade dos anos 2000 foi que aconteceu um certo “boom” imobiliário, com a construções de alguns prédios e espaços comerciais (o Comitê Organizador das Olimpíadas ficou nesta região). Mas com a crise econômica, os projetos foram praticamente congelados (ao lado do Sambódromo há um grande prédio empresarial, belamente espelhado e virtualmente vazio, a espera de interessados).

Na esteira desta revitalização, a Prefeitura executou várias obras. Mas por diversas questões, muitas ruas não foram mexidas. Assim restam várias ruas estreitas, sem infraestrutura e com muitas edificações antigas. Este aspecto acaba por ser mais perverso, pois boa parte delas são de gente de baixa renda. As construtoras já fizeram gestões no passado pela região, otimamente localizada, mas foram em parte rechaçadas.

Como fã de automobilismo, fico contente com a iniciativa. Precisamos de corridas (o Rio de Janeiro tem um histórico de velocidade, a começar pelo Circuito da Gávea) e estes eventos trazem público e renda à cidade. Mas temos que lembrar que tínhamos um autódromo e que sediou esta mesma categoria anos atrás. Temos pessoas sem condições que podem ser empurradas de qualquer jeito para as periferias e favelas tendo tal evento como “cortina de fumaça”.

E o transtorno? O Carnaval é limitado. A montagem de uma pista na região, ainda mais logo na sequência, levaria a uma grande confusão para a população.

Temos muitas questões para serem respondidas. Que o Rio de Janeiro e o Brasil não ganhem mais uma mancha no seu currículo. E mais um gol da Alemanha.

Por Sérgio Milani (@smilani80)

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Jornalista. Abril, UOL, Yahoo, Estadão, Correio Paulistano.
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