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#F1: até quando vale a pena?

22/08/2018

#F1: até quando vale a pena?

Tivemos nesta segunda, 20/08, mais uma confirmação de vaga na Fórmula 1: Pierre Gasly, o bom piloto francês, será companheiro de Max Verstappen em 2019 na Red Bull. Movimentação mais do que ensaiada, ainda depois da mudança de Carlos Sainz para a McLaren, saindo da aba da própria Red Bull. Isso tudo na esteira de Daniel Ricciardo confirmado na Renault como companheiro do Nico Hülkenberg. Notaram que todas estas últimas movimentações giram em torno de pilotos que tiveram contrato com a equipe dos famosos energéticos. No topo de tudo isso, a filial italiana Toro Rosso tem, em tese, duas vagas livres para o ano que vem, já que Hartley não tem feito muito por merecer uma nova chance perto do que o promovido companheiro de equipe fez.

Na primeira coluna por aqui, cheguei a fazer uma pequena lista dos pilotos que foram limados do programa de jovens talentos da Red Bull, ou de pilotos experientes que simplesmente não renderam dentro dos carros taurinos. Será que Vergne e Buemi topariam uma volta às origens? Duvida-se muito. O primeiro é o atual campeão da Fórmula E depois de um campeonato impecável. O segundo é ex-campeão da mesma categoria, sendo piloto de fábrica agora da Nissan (ex-Renault). Duas carreiras consagradas na categoria em troca de voltar a uma equipe “boi de piranha” que é conhecida por receber a mesma atenção que eu receberia se me candidatasse ao Prêmio Nobel de Literatura.

Daí vem a pergunta do título. Qual o momento no qual o piloto, que se associa a esse programa, tem que olhar para outras possibilidades? Tão tarde quanto Bourdais ou Buemi ou tão cedo quanto Sainz ou Sette Câmara – apesar do brasileiro ainda manter um certo contato com os chefes? Sainz e Ricciardo preferiram seguir com as próprias pernas, saindo de prováveis bons carros, capazes de tungar duas ou três vitórias ou poles por temporada. O espanhol vai para uma McLaren que é a mais pura incógnita para 2019 e o australiano segue numa equipe de fábrica que, com alguma boa vontade, brigará por pódios. É uma mudança radical de rumo que não tem meio termo: dá certo ou não. Parece até uma decisão que tomei a uns dois anos atrás…

Ambos, talvez, optaram por não estar mais debaixo de uma chefia especialmente temperamental, vide as brigas entre Red Bull e Renault, com um funcionário considerado preferido no mesmo “nível hierárquico”. A balança pesou pelo lado de uma provável disputa entre companheiros de equipe menos explosiva na pista, sem que, em caso de caos, a chefia passasse a mão na cabeça do colega preferido a quase toda vez. Ainda assim, saem da Red Bull que ainda mantém Adrian Newey em seu competente corpo técnico com uma Honda, digamos, num ambiente mais pacífico para trabalhar. A paz de espírito faz diferença neste caso.

Quantas vezes você, leitor, não pensou em simplesmente trocar de emprego ou carreira? Entra aqui o famoso dilema que os “coaches” sempre abordam com seus consultados: talvez, o problema esteja em você. Sim, você. Uma das definições de insanidade é tentar várias vezes a mesma coisa esperando um resultado diferente. Obviamente, essa máxima usada inúmeras vezes dá a impressão, a quem olha de fora, que a pessoa esteja fugindo do real problema, ao mudar de local ou emprego a toda vez. Existe um equilíbrio nessa aplicação. Raramente um colega teu de trabalho dará uma dica sobre como você deve se portar, a não ser que a empresa que você trabalha tenha algum tipo de programa coordenado, e sério, de desenvolvimento pessoal. Ser reconhecido como um talento único, nesses casos, é essencial.

Notem onde quero chegar. Sainz e Ricciardo estão longe de serem pilotos medianos ou ruins. Acreditem, mesmo que Sainz esteja tomando uma lavada de Hülkenberg até o momento na Renault, o filho do campeão de rally fez por merecer o reconhecimento obtido até agora. O ponto é que, para a Red Bull, se não for um talento como Vettel ou Verstappen, não vale investir muita grana a longo prazo. O contraponto é que, agindo dessa forma, os austríacos acabam reduzindo em muito o leque de escolha a médio prazo. É como num esporte coletivo – excluo dessa análise o Dream Team dos EUA de 1992 –, onde é muito difícil obter excelentes jogadores em cada posição. Sempre tem um ou outro em nível técnico menor que as estrelas do time, mas exercem a função de carregadores de piano. São pau para toda obra, se desdobram na marcação e abdicam de aparecer o tempo todo no topo.

Querem dois exemplos disso dentro da própria Red Bull? Mark Webber e David Coulthard. Ambos, longe do talento do primogênito Vettel, foram essenciais para o crescimento da Red Bull na Fórmula 1 com sua capacidade de acerto de carros e experiência atrás do volante. Voltando ao meio empresarial, sempre tem aquele funcionário com anos de empresa que, longe do brilho da nova geração, tem sempre o atalho ou soluções passadas para resolver o problema. Qualquer empresa raramente é composta em sua totalidade de pessoas que são talentos brilhantes prontos para serem promovidos. Até porque não cabe no organograma. Escolhas são feitas de cada lado e é muito difícil o aproveitamento total de todos na estrutura.

Assim foi o programa de jovens talentos da Red Bull até o momento. Promoveram quem lhes interessava, desligaram os que não e remanejaram a outras categorias os que eles julgam ter algum talento para o automobilismo ou motociclismo. Antes de serem uma equipe de competição, a fábrica de bebidas é uma empresa. E, como em toda empresa, pessoas pedem demissão porque não se vêem mais dentro do esquema, seja lá por qual motivo for. No final, a pergunta do título desta coluna é sempre pertinente, mas nunca tem uma solução simples. Exatamente pelo motivo da vida não o ser. Que Sainz e Ricciardo não venham a se arrepender no futuro das respectivas escolhas. A Fórmula 1 não pode se dar ao luxo de ver bons talentos brigando pela sexta, sétima posição em cada corrida; enquanto as equipes atuais de ponta se revezem na luta pelas vitórias com alguma frequência.

Antes de finalizar, o leitor pode estar se perguntando se arrependo das minhas. A resposta é um sonoro e nórdico não. Com um sorriso no rosto maior do que o do Ricciardo.

Por Carlo Zanevello (@NoVacuo)

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Jornalista. Abril, UOL, Yahoo, Estadão, Correio Paulistano.
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