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Pra lá do fim do mundo: uma aventura rara e inesquecível

12/06/2018

Pra lá do fim do mundo: uma aventura rara e inesquecível

Após 19 dias e 8.147 quilômetros de estrada, a expedição Honda – Pra Lá do Fim do Mundo chegou, finalmente, exatamente lá . O desembarque em Puerto Toro, vilarejo mais austral do planeta, aconteceu no domingo, dia 25 de março desse ano. Depois de remar do continente africano até o Brasil e de dar a volta ao mundo dentro de um barco, o navegador Amyr Klink aceitou a aventura até o extremo sul do Chile junto com o jornalista Joel Leite. A bordo de um WR-V e um HR-V, eles percorreram quatro países sul-americanos.

“Os turistas estão acostumados a ir para Ushuaia e dizer que é ali o fim do mundo”, disse Klink no primeiro dia de viagem. “No entanto, Puerto Williams e Puerto Toro, no Chile, depois do canal de Beagle, estão ainda mais ao sul. E é pra lá que nós vamos”, avisou.

Xangri-lá

No roteiro do 3º dia, a subida da serra do Rio do Rastro, uma espetacular sucessão de curvas que ligam os municípios de Lauro Müller, a 220 metros de altitude, a Bom Jardim da Serra, a 1.245 metros. Mais precisamente, 252 curvas ou 284, a bem verdade, ninguém sabe ao certo.

Mas em seus 25 quilômetros, o motorista fica num ziguezague maluco. Curvas em formato de cotovelo, ladeira acima, uma inclinação danada. Em seu trecho mais sinuoso, são 670 metros de variação de altura em apenas 8 quilômetros. Os mais chegados em números calculam dez ou onze curvas a cada quilômetro.

A parada final foi a cidade de Xangri-lá, já no Rio Grande do Sul, onde os aventureiros visitaram um dos ‘gols de placa’ marcados pela Honda desde sua chegada no Brasil: o Honda Energy, um parque eólico que gera toda a energia consumida pela fábrica da empresa em Sumaré (SP).

Enormes fragmentos viram arte

O 5º dia começou com mais um trecho pela praia, até o último metro de areia do Brasil, na Barra do Chuí. Um molhe (paredão) de pedras torna impossível seguir viagem. Mas Amyr Klink fez questão de descer do carro, caminhar pelas enormes pedras e avistar o Uruguai.

Logo ali está o  ateliê de um escultor de ossos de baleia. Ele se chama Hamilton Coelho. Tem 61 anos. Há 30, entrou numas de pegar restos lançados pelo mar e transformar em arte. Desde madeiras e boias até, e principalmente, ossos de baleia. Enormes fragmentos de crânios, mandíbulas, vértebras e costelas viram obras de arte.

Ruta 9

Anote o nome dessa estrada: Ruta 9. Ela desfila por 210 quilômetros em longas, retas e poucas curvas no topo sul do vale do rio Santa Cruz. É de rípio, aquele cascalho típico da Patagônia, que deixa tudo mais bonito e selvagem. Vai do leste ao oeste da Argentina. A ideia era sair de Comandante Luis Piedra Buena e acelerar para cruzar a fronteira em direção ao Chile. Mas um espetáculo da natureza mudou o rumo da expedição.

Amyr Klink sugeriu uma visita ao glaciar Perito Moreno, o que colocou a beleza da Ruta 9 no caminho. Vale dizer que a geleira já estava na programação, mas o próprio Amyr pediu que a visita fosse cancelada pelo fato de se tratar de um local demasiado turístico.

O glaciar é gigante: 254 quilômetros quadrados, maior do que a cidade de Buenos Aires e um dos seus paredões tem mais de 70 metros de altura. “O Perito Moreno lembra muito a Antártica. Só falta tirar essa multidão e as passarelas”, brincou Amyr.

La Sirena y el Capitan

Já no 13º dia, a viagem seguiu para Puerto Almanza, uma minúscula vila de pescadores com 32 habitantes. Na passagem pelo porto do povoado. Ninguém nas ruas. Frio. Mas uma luz acesa nos fez parar diante de uma casa laranja com a placa Restaurante La Sirena y el Capitan.

A expedição foi recebida por Sergio Corvo, o capitão. Ele era carpinteiro em Buenos Aires. Foi fazer um serviço em Rio Grande, deu uma esticada a passeio até Puerto Almanza e decidiu ficar. Virou pescador de centolla (caranguejo) e abriu o restaurante. Usa carne de castor para fazer as iscas e lançá-las com suas redes.  Conforme a época do ano, os bichos podem viver a 100 metros de profundidade.

Desdemona

No cabo de San Pablo, Desdemona. Tem 77,7 metros de comprimento, 12,5 de altura e 7,8 de largura. Encalhou em 9 de setembro de 1985, depois de seu motor deixar o capitão na mão. Há quem diga que foi uma jogada da companhia dona do navio para ganhar uma grana do seguro. Fato é que o Desdemona jaz na praia. Um hotel abandonado antecede a chegada à areia. Foi construído como parte de um plano turístico do governo – não vingou.

Amyr, que já esteve lá outras vezes, não titubeia: coloca o HR-V na areia e entra onde deveria estar o mar, se não estivéssemos no período da maré baixa e, mais ainda, exatamente no dia de equinócio, quando o mar recua como nunca. Com o WR-V, Joel também entra no mar. O leito é de pedras grandes e escorregadias. Um desafio para os carros, que conseguem chegar na areia dura que ladeia o naufrágio.

Avenida dos Glaciares

Talvez você esteja dormindo. O balanço suave do barco, a calefação da cabine, a paisagem pela janela, o conforto da poltrona, o frio congelante do lado de fora. Tudo leva a uma esticada no corpo e a uma soneca. Mas quando o capitão anunciar pelo alto-falante que a Yaghan, a gigantesca balsa de 71 metros de comprimento está embicando na avenida dos glaciares, levante, agasalhe-se bem, desça até o restaurante, prepare um chá quente e suba até o convés. Vai começar o desfile de glaciares às margens do canal de Beagle.

O primeiro a dar o ar da graça é o Espanha. O capitão para o barco. Fica de frente para o paredão. O Espanha está no topo de uma montanha de meio quilômetro de altura. É de um branco-turquesa que só ele. E com uma enorme cachoeira que desaba de sua base. Dá até uma agonia ver esse iminente derretimento do gelo. “É um sangramento”, diz Amyr Klink.

O vento sopra gelado. Logo depois vem o Romanche, seguido pelo Alemanha e pelo França. O Itália é o seguinte. Este começa na montanha e chega até a água. Tem as paredes maiores e mais bonitas que a do famoso glaciar Perito Moreno, na Argentina. Nos cinco minutos em que a Yaghan ficou ali, foi possível ver e o ouvir a queda de três pedações de gelo no mar. Caso suporte o frio, fique mais dez minutos no convés até a chegada do Holanda.

O desfile de glaciares descrito acima aconteceu no segundo dia da travessia de balsa de Punta Arenas a Puerto Williams, no extremo sul do Chile. Foram 32 horas e 303milhas náuticas (540 quilômetros) .

Guerreiros da estrada

No último dia, os guerreiros, em ótimo estado, vestidos com uma grossa camada de sujeira, o WR-V e o HR-V que levaram a expedição atão longe seguiram a bordo da Yaghan, a caminho de Punta Arenas, de onde retornarão de cegonha ao Brasil. A equipe tomou um ônibus até Puerto Navarino. Ali, uma barca que levantou dúvida sobre sua capacidade de vencer o agito do canal de Beagle levou a todos de volta à Argentina. E, depois, Brasil.

*A expedição Honda – Pra lá do fim do mundo tem um diário de bordo onde todas as história, fotos e vídeos podem ser vistos (Clique). Aliás, os fragmentos desse texto foram tirados de lá.

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Jornalista. Abril, UOL, Yahoo, Estadão, Correio Paulistano.
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