F1

Da promessa à entrega. Max escorrega na própria baba

30/05/2018

Da promessa à entrega. Max escorrega na própria baba

Max Verstappen inegavelmente tem um talento acima da curva. Desde as primeiras aparições na Fórmula 3, o holandês enche os olhos de quem gosta de assistir a uma boa prova. Ótimo controle do carro, rápida tomada de decisão ao fazer ultrapassagens e a arte de navegar um bólido debaixo de chuva. Só isso já seria suficiente para colocá-lo numa importante lista do automobilismo: a dos pilotos que estão lá pelo puro talento.

Verstappen tem vitórias na Fórmula 1. Poucos pilotos com o seu talento, que passaram ótima impressão nas suas passagens, conseguiram tal feito. Cito aqui Stefan Bellof, Pierluigi Martini e o próprio pai dele, Jos Verstappen, como pilotos que poderiam facilmente ter vencido na categoria e não o fizeram. A Red Bull já tem o jovem holandês sob suas asas até o final de 2020, apostando nas entregas que ele poderá fazer daqui para frente.

Acontece que Max escorrega em sua própria baba, para ficar numa expressão do grandioso Edgard Mello Filho. Tem atitudes estabanadas nas suas disputas de posição. Erra, assim como o fez no final do 3º treino livre em Mônaco neste último sábado, nas horas mais impróprias. Bater a sete minutos do fim da sessão, fazendo com que sua equipe tivesse que trocar a transmissão num intervalo de menos de duas horas, apenas mostra um desses momentos. Isso sem contar as batidas em disputas de posições neste ano quando estava seguramente dentro das cinco primeiras posições. Verstappen promete, mas não entrega.

Numa conta rápida, a Red Bull seria segunda colocada no Mundial e Verstappen estaria a, no máximo, 25 pontos de distância de Hamilton. Verstappen hoje tem pontuação similar a de Alonso – só para se ter uma base. Ter dentro de si o estilo “win or wall” (vitória ou muro) custa caro a Red Bull, tanto no quesito material quanto no quesito promocional. Se, no ano passado, o piloto foi figurante na temporada pela quantidade de quebras, neste ano ele o é, pelo menos na pontuação, devido à imensa capacidade de chutar um balde cheio.

Parece que Jos Verstappen tem que ficar ao pé do ouvido do Helmut Marko pedindo desculpas pelas besterias que o filho faz, após ameaçar em alto e bom som a saída da equipe depois das sequências de quebras do motor Renault em 2017.

O que se chama de novo mundo moderno, geração “millenials” ou qualquer coisa que o valha, trouxe a nós, que nascemos antes da década de 1980, um estrelismo acima do que estávamos acostumados quando tínhamos a mesma idade de Max Verstappen. Falta hoje nele o que sempre nos foi cobrado para o tal “crescer na vida”: resultado. Alguém pode dizer que Max fez na F1 até o momento o que muitos “donos” de categoria de base não fizeram nos muitos anos que por lá ficaram. Pizzonia, Zonta, Trulli, Klien e até mesmo Bourdais nunca foram mais do que talentos com alguns bons momentos que nós só lembramos quando algum site ou a própria F1 faz um compilado de história de um GP nas redes sociais – caso do Trulli, que teve sua única vitória em um Grande Prêmio de Mônaco.

Verstappen corre o risco de sair da F1 com o mesmo nível de lembrança que Gilles Villeneuve, com a diferença de que não terá guiado pela Ferrari e dificilmente morrerá dentro da pista dada a segurança dos carros e circuitos atualmente. O canadense, exímio artista no controle de um automóvel, teve 6 vitórias na categoria, várias quebras e, principalmente, acidentes. A imagem dele guiando uma Ferrari com três rodas em Zandvoort foi causada por um erro solitário na pista. É espetacular assistir às imagens até hoje, claro que é. Assim como é igualmente espetacular assistir à derrapada nas quatro rodas em Interlagos de Verstappen no dilúvio de 2016.

Qual o resultado prático dessas duas manobras? Além do ótimo visual das imagens, o controle de Verstappen o levou à segunda colocação daquele GP, vencido por Hamilton.

Helmut Marko, conhecido por ter o pavio mais curto da história do automobilismo desde sempre, só não o colocou para fora ainda porque tem medo – sim, medo – de ver seu pupilo ganhando uma corrida por outra equipe. Esse medo ele não tinha com relação ao Kvyat, por exemplo. O russo, atual piloto de testes da Ferrari, foi demitido por duas vezes, de Red Bull e Toro Rosso. Ainda, hoje não há ninguém, exceto o emprestado Sainz  (com alguns altos e baixos na Renault), que possa assumir o segundo carro da matriz. A lista de pilotos chutados da empresa dos touros vermelhos é grande. Vai de Speed e passa por Klien, Alguersuari, Bourdais…

Verstappen tem tudo para queimar minha língua, caso de quando falo dele no You Tube, ou meus dedos, quando converso com vocês aqui, pelo site. A verdade é que, como hoje, a Red Bull tinha tudo para fazer um sábado recheado de notas de imprensa e fotos. Porém, ficará limitada, com várias aspas, ao bom desempenho de Ricciardo. O fato, inegável, é que hoje, quem tem mais condição de fazer um contrato duradouro, caso ambos estivessem lutando pela renovação, seria o australiano. Abrem-se duas vagas importantes para 2019: uma na Ferrari, que pode ser de Leclerc caso os italianos continuem com sua saga de ter um piloto principal apostando tudo em Vettel, e outra na Mercedes, que não faz lá muita questão desse negócio de primeiro e segundo piloto. O nome que mais aparece na temporada de boatos como provável piloto de uma das equipes é de, adivinhem, Ricciardo.

Max não vive um inferno astral como Grosjean ou Ericsson. Não é preterido nas estratégias de equipe assim como acontece com Raikkonen na Ferrari. Não precisa desenvolver uma equipe vencedora, assim como Hulkenberg na Renault e nem como Alonso na McLaren. O caminho dele é mais livre e, mesmo assim, fica a impressão de que Verstappen coloca sobre si o maior número de dificuldades possível. Se atrapalha nas próprias decisões e palavras, assim como Elizabeth Holmes, a CEO e fundadora da Theranos, que recentemente abriu processo de falência.

A trajetória, muito parecida com a do piloto, consta de uma jovem que supostamente inventara um sistema de análise laboratorial que utilizava apenas algumas gotas de sangue. Um achado, uma vez que só o sistema de descarte de rejeitos biológicos seria reduzido em quase 90%. Acontece que Holmes entregava algo diferente do que prometia, já que sua empresa utilizava os mesmos métodos das empresas tradicionais. Ficou impedida de negociar em Wall Street por dez anos, além de ver ruim um império de bilhões de dólares.

Verstappen obviamente não mente sobre sua habilidade e rapidez. Entretanto, não consegue entregar tudo aquilo que se espera dele. Isso, no meio de mais uma revolução no modo de fazer negócios, é uma forma extremamente rápida de liquidar a própria carreira.

P.S.: é com muita satisfação que volto a escrever para o Amigos da Velocidade. Espero conversar com vocês bastante por aqui.

Carlo Zanovello, 38, é engenheiro e comentarista de automobilismo pelo canal No Vácuo do YouTube, Twitter e Facebook (@NoVacuo)

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Jornalista. Abril, UOL, Yahoo, Estadão, Correio Paulistano.
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